A fantasia da não-ficção
- Outra Cancha
- 29 de mai. de 2020
- 3 min de leitura

Começou hoje, de forma não muito empolgante, mais uma rodada da Bundesliga, a vigésima nona. Num duelo morno entre Freiburg e Bayer Leverkusen o time visitante voltou a vencer com gol de sua estrela, o jovem Kai Havertz. Ao fim da rodada restarão apenas mais cinco jogos para cada equipe e fatalmente o oitavo título alemão seguido ficará em Munique.
O foco recebido pela Bundesliga, por ter sido o primeiro dos grandes campeonatos de clubes do mundo a retornar às atividades, aos poucos vai sendo deixado de lado, com o anúncio dos retornos da La Liga (Campeonato Espanhol), no dia 11 de junho e da Premier League (Campeonato Inglês) uma semana depois, dia 17.
Hoje, no entanto, não será especificamente sobre futebol que vou falar, mas sim sobre uma série da Netflix que tem como foco central outro esporte, o basquete, mas que vai muito além disso, tendo despertado em mim, inclusive, a motivação para a escrita deste texto.
Falo de The Last Dance (Arremesso Final), série que reconta a história da dinastia do Chicago Bulls na década de 1990 na NBA, quando venceu seis campeonatos e modificou muito a forma como esta liga de basquete passou a ser encarada no mundo todo.
Desde que comecei a assistir a série (composta de dez episódios, com cinquenta minutos de duração cada) fui tomado por um sentimento que muitas vezes aparece em mim de nostalgia em relação aos anos 1990. Tendo nascido no início desta década, tenho poucas lembranças do que vivi e por vezes me pego imaginando sobre como teria sido vivenciar enquanto torcedor e entusiasta do esporte, a dinastia dos Bulls, as Copas de 94 e 98, os altos e baixos do Flamengo, dentre outros momentos marcantes dessa época.
Essa espécie de nostalgia se espraia para outras áreas da cultura, como a música, os filmes, os costumes de modo geral. De forma alguma diria que não gostaria de estar vivenciando o caótico e desafiador agora, mas exercícios imaginativos de outrora, em especial relacionados aos anos 90 muito me atraem.
Não sem motivo, portanto, devorei a série, vendo os episódios diariamente, de uma segunda a outra e finalizando o último episódio com muitas reflexões. Uma delas é de como, olhando em retrospectiva, a história real de Michael Jordan, Scottie Pippen, Dennis Rodman, Phil Jackson e todos os outros que fizeram parte da dinastia do Bulls parece até fantasia. É surreal pensar no tamanho da transformação provocada pelo estilo de jogo e de comunicação criado em Illinois.
A parceria entre Jordan e a Nike, os longos sete anos sem títulos de Jordan, desde sua estreia na NBA, em 1984, até o primeiro título, em 1991; o vício em jogos e a exacerbada competitividade de MJ; o eterno papel de coadjuvante de Pippen, mesmo sendo um dos melhores jogadores da história; a absurda loucura e imprevisibilidade de Rodman; a íntima ligação de Phil Jackson com a cultura indígena estadunidense; a figura controversa de Jerry Krause; a morte de James Jordan, pai de Michael; as desavenças entre Jordan e Isiah Thomas; o Dream Team dos EUA nas Olimpíadas de 1992; o caso LaBradford Smith; todas as campanhas de títulos dos Bulls, com protagonismo de Michael Jordan, mas também com presenças fundamentais de alguns heróis improváveis, como os armadores John Paxson e Steve Kerr; o chamado "Flu game", nas finais de 1996/97, entre Chicago e Utah; a real ameaça de Reggie Miller e do bom time dos Pacers na Final do Leste na temporada 1997/98; todos esses momentos, que podem ser vistos em detalhes na série (até porque este texto não quer dar spoilers), constroem uma narrativa que poderia facilmente ter sido criada por um bom escritor de histórias de aventura, envolvendo esporte e o mundo globalizado. Mas foi somente a realidade mesmo.
Eu penso que todos necessitamos da fantasia em tempos de pandemia e por isso não abro mão da leitura de romances, ainda mais nesses últimos meses, mas conhecer os detalhes, os prós e os podres da carreira de Michael Jordan foi um mergulho numa realidade que já existiu e que ajuda a pensar e conhecer mais sobre a nossa própria realidade.
Num momento em que precisamos reinventar para sobreviver às incertezas do "novo normal", pensar em como o mundo, as relações esportivas, mercadológicas e culturais eram no mundo pré-Jordan e passaram a ser no mundo pós-Jordan pode ser um luxuoso auxílio para vislumbrar as transformações que queremos construir.
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