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Do luxo ao lixo: o hexa adiado pela recusa da feiura

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 9 de dez. de 2022
  • 2 min de leitura

Não há mal nenhum em ser belo, não há pecado nenhum em ter luxo.


Será mesmo?


Impossível não fazer esse questionamento depois de mais uma derrota brasileira em Copa do Mundo. Mais uma derrota em fase de quartas-de-final. Mais uma derrota para um time europeu. Mais uma derrota que deixa na boca o sabor amargo de que seria possível mais.


Como explicar ou ao menos tentar elaborar algum tipo de raciocínio ou reflexão sobre este novo fracasso?


Nestas primeiras horas pós eliminação, ainda durante a inesperada prorrogação de Argentina x Holanda (o segundo gol holandês ainda vai render muitas e muitas histórias), o primeiro caminho que vem é o da estética, entendida de forma bem específica aqui. Vamos então às especificidades.


Muito se falou, nos últimos dias, sobre a já polêmica carne de ouro comida pelos jogadores da Seleção entre uma partida e outra da fase de grupos; muito se discutiu também sobre as dancinhas dos jogadores brasileiros, em especial depois do jogo das Oitavas, contra Coreia e das lamentáveis declarações do ex-jogador Roy Keane.


Como esses dois eventos relacionam-se ao decisivo evento do gol de empate da Croácia no jogo de hoje, aos 116 minutos de jogo?

Pra mim, a resposta é a seguinte: o luxo e a riqueza da carne de ouro ficam longe de qualquer feiura, necessária, para segurar um resultado magro em eliminatória de Copa do Mundo. A malícia e malemolência das dancinhas ficam próximas, muito próximas, da malandragem, também necessária, para segurar um resultado magro em eliminatória de Copa do Mundo. Faltou dançar miudinho, na boa, na hora certa. Faltou chamar o jogo. Faltou lembrar não só de onde a gente chegou, mas também de onde todos viemos.


Não há, é claro, nenhuma relação direta entre os eventos extra campo citados acima. Ao fim e ao cabo, o futebol se resume às atitudes tomadas dentro das quatro linhas, mas é no mínimo ingênuo pensar que todo o clima que cerca esse espaço onde tudo se dá não influencia e de alguma forma modifica o que acontece ali dentro.


Por isso penso que a recusa da feiura adiou o hexa. A assepsia de querer ser o melhor sem se sujar, sem mergulhar na profundeza do incerto, sem segurar o resultado com humildade e resignação. A montanha estava escalada após o gol de Neymar, mas faltou recolher os equipamentos com segurança e voltar a pisar em terra firme sem deixar nada pra trás.


Com Tite, um Brasil correto, europeizado, equilibrado e bem treinado quase sempre foi a campo. Nesta Copa, em especial, lampejos de um time campeão foram mostrados. Mas talvez de dentro dessa fortaleza e desses pontos positivos escondam-se também os pontos negativos desse time: o dionisíaco não vê espaço para surgir, o inesperado, a ginga que altera o padrão, que quebra as linhas e faz o olho brilhar, que transforma o sonho em realidade.


A minha primeira Copa de fato assistida foi a de 2002. Jamais esquecerei de acordar num domingo de manhã para ver Oliver Kahn rebater bola e o Brasil ser campeão. Fico na esperança de um novo domingo assim. Que venha em 2026.

 
 
 

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