O artilheiro do afeto
- Outra Cancha
- 26 de jul. de 2022
- 4 min de leitura
"Futebol e política não têm nada a ver".
Uma das infinitas maneiras de rebater esse chavão que muitas vezes se ouve por aí é a série Casão - Num Jogo Sem Regras, de Susanna Lira, produzida pela Globoplay.
Assisti aos quatro episódios ontem e fiquei com vontade de trazer um pouco do que pensei e senti aqui no Outra Cancha.
Inevitavelmente, pelo fato de Walter Casagrande Jr., personagem principal da série, se tratar de um ser humano apaixonado por música, seja como jogador, comentarista ou fora das telas e das atividades profissionais, a trilha sonora da série teria que ser algo bem pensado e realmente foi.
Pra mim, além de conhecer mais sobre a história, as dores e delícias da vida de Casão, foi um deleite ouvir várias canções que já tinha ouvido tantas e tantas vezes. O rock n' roll clássico certamente iria ter seu lugar, mas a série foi além, temperando com Belchior, Macalé e Clube da Esquina o enredo dos quatro episódios.
Aliás, a escolha de nomear cada um dos episódios com trechos de algumas canções foi simples e eficaz: "Take another little piece of my heart"; "A felicidade é uma arma quente"; "Por que que a gente é assim?" e "Não fale comigo, eu posso chorar" são os títulos e o último, em especial, de fato trouxe os soluços de Macalé pra dentro de mim.
A série procurou mostrar um pouco da vida de Casagrande antes de se tornar um jogador de futebol profissional (episódio 1); sua trajetória como jogador, em especial a relação com Sócrates e a Democracia Corinthiana (e também a breve passagem pela Caldense, de Poços de Caldas) (episódio 2); as temporadas como jogador do São Paulo, a Copa de 1986 com a Seleção Brasileira e passagens por clubes europeus, como Porto, Ascoli e Torino (episódio 3); o retorno ao Brasil pra jogar no Flamengo e no Corinthians, a vida como comentarista, a relação com Marcelo Fromer e, ápice da série, a dependência química sofrida por Casão, tanto nos seus aspectos demoníacos, quanto na sua superação (episódio 4).
Um detalhe marcante, que aparece já no primeiro episódio, é a relação de Casagrande com sua irmã Zilda, vista por ele quase como uma segunda mãe e que teve uma morte precoce, ainda aos 22 anos, quando Casagrande tinha apenas 17. Sinto que todo o amor do Casão pelo rock e pela música passa muito por esse contato forte que teve com a irmã, por boas lembranças que o fizeram carregá-la com ele através do som, ainda que, muitas vezes, inconscientemente.

Outra pessoa que marcou de maneira forte e intensa a vida do personagem principal da série foi Sócrates. Companheiro dentro e fora das quatro linhas. Os dois foram os principais expoentes tanto futebolísticos, quanto políticos do que ficou conhecido como Democracia Corinthiana, um dos mais belos capítulos da história do futebol brasileiro. Com muito conhecimento de causa, os depoimentos de Juca Kfouri que aparecem na série afirmam, dentre outras coisas, que foi este movimento que alavancou o Corinthians à condição de um clube nacional e não mais provinciano. Além disso, a Democracia Corinthiana teve forte representatividade política na época, tendo sido um empurrão a mais para o fim da Ditadura Militar em nosso país.
Mas talvez o que mais tenha ficado deste capítulo, pensando na vida pessoal de Casagrande, tenha sido o amor desenvolvido entre ele e Sócrates. Mesmo antes de ver a série já conseguia perceber na figura de Casagrande um apaixonado, alguém desajustado daquela estética asséptica/sapatênica da Globo - as "tretas" com Caio Ribeiro e Thiago Leifert, tão comentadas nas redes sociais deixavam isso ainda mais claro -, mas isso não acontecia por marketing ou qualquer coisa do tipo, acontecia porque Casão de fato é um homem que não tem medo de demonstrar o seu afeto e a sua forma de ver o mundo, e isso fica muito claro quando ele comenta sobre sua relação com Sócrates.
Contudo, não foram somente os momentos felizes e positivos que marcaram a vida de Casagrande e a série. Dedos também são colocados nas feridas: a fracassada Copa de 86, única disputada por Casão e que terminou de maneira melancólica, com um grande desacordo com Telê Santana, então técnico da Seleção; as lesões que o acompanharam nas passagens pelos clubes europeus e, principalmente, a doentia relação com as drogas, que começou a ganhar cada vez mais força já nos anos 2000, quando Casagrande era comentarista da Globo.
Para além dos clichês de superação pessoal, a volta por cima dada por Casagrande, que contou com a ajuda fundamental da família e de profissionais, que também dão os seus depoimentos na série, é um exemplo de alguém que, sem hipocrisia, sentiu na pele o que é estar no fundo do poço (Galvão Bueno, em seus depoimentos, chega a enfatizar que esse poço era verdadeiramente fundo) e conseguiu se reerguer e ir além, fazendo a opção de se transformar nesse comunicador que leva a todos a mensagem de que é possível ser quem se é combatendo os seus demônios (nesse sentido, o depoimento de Casão na final da Copa de 2018 é um marco). É uma alegria enorme ver pessoas como Casagrande podendo se expressar e deixando esse recado que, no fim, também pode ser resumido em um trecho de música, como nos títulos dos episódios da série: "love is all you need"!
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