Ampliando (e reconhecendo) espaços
- Outra Cancha
- 11 de jun. de 2020
- 3 min de leitura

Feriado.
Essa palavra talvez não faça tanto sentido depois de meses de quarentena. Em muitas cidades os feriados foram antecipados e os dias, para todos, vão sendo cada vez mais iguais.
No meu caso, contudo, o feriado ainda está com gosto de feriado mesmo. E só assim para que eu pudesse voltar a escrever por aqui, depois de dez dias. As últimas semanas foram cheias de trabalho e hoje a forma de respirar foi acordando um cadinho mais tarde e dando aquela faxina geral na casa.
Tudo pra que fosse possível encerrar a tarde com tranquilidade para acompanhar o retorno de La Liga (Campeonato Espanhol), mais uma das grandes ligas do futebol que vai voltando às atividades. O jogo de retorno foi o clássico entre Sevilla x Bétis. Alguns detalhes, desde o início do jogo, chamaram muito a atenção. Os protocolos e medidas de segurança contra o coronavírus , que já vinham sendo tomados na Bundesliga, também foram seguidos na Espanha, mas talvez até mesmo por conta das experiências já realizadas, o clássico espanhol já começou com torcida digital e som ambiente. O que parece que será cada vez mais adotado. Eu vejo como uma alternativa possível, mas que deixa ainda mais evidente a estranheza dessa nova normalidade.
Dentro de campo, o dérbi de Andaluzia não trouxe aquele futebol de encher os olhos, mas teve bons momentos. O resultado, vitória de 2 x 0 do Sevilla, com gol de pênalti do argentino Ocampos e de cabeça do brasileiro Fernando (com uma bela assistência de letra de Ocampos, melhor jogador da partida), confirma a distância na tabela entre as duas equipes: o Sevilla chega a 50 pontos, atrás apenas da dupla Real e Barça e se aproximando cada vez mais de uma vaga na próxima Champions League; o Bétis fica nos 33, na 12ª posição.
Confesso que até então acompanhava pouco o Campeonato Espanhol, motivado por principalmente por uma espécie de cansaço e preguiça diante da quase inescapável predominância de Barcelona e Real Madrid. Apesar de serem dois dos principais times do mundo e ser praticamente impossível pra quem acompanha futebol não estar atento aos movimentos dos dois gigantes espanhóis, campeonatos com mais times na briga pelo título geralmente trazem mais histórias, heróis e bons jogos.
Mas estou vivendo esse momento de retorno ao futebol na Espanha como uma forma de ampliar (e reconhecer) espaços. Penso nesse movimento de forma análoga ao que vem acontecendo no dia a dia de quarentena. Perceber o sol que entra pela janela e gera um espaço mais aconchegante pra ficar no quarto de manhã, a quina da geladeira, o cantinho esquecido das paredes da sala. Toda a casa é vivenciada de outra forma, será que a La Liga também não pode ser? Mais um dos desafios que se apresentam para os próximos meses.
O que vem se confirmando cada vez mais é que em meio as várias crises pelas quais passamos, o esporte pode e deve ser um importante trunfo para que aqueles que têm a possibilidade de assistir as partidas de dentro de suas casas possam compartilhar momentos de emoção e alívio, as retas finais das principais competições europeias (a Itália volta amanhã, a Inglaterra na semana que vem), os novos ídolos que vão surgir nesse novo tempo.
No Brasil, contudo, é triste perceber a flexibilização de algo que de fato nunca ocorreu. Essa capenga quarentena que aos poucos vai sendo abandonada claramente não surtiu o mesmo efeito que surtiu em vários países europeus, o que é óbvio, diante de tamanha balbúrdia (a verdadeira) que vem de cima. Paralelamente a isso, ações e atitudes, em vários níveis, também vão sendo tomadas. Cabe destacar o movimento "Esporte pela Democracia" que reuniu um grupo de atletas e jornalistas para defender bandeiras fundamentais e que (ainda bem) estão mais presentes: a democracia, a questão racial, a ligação intrínseca entre esporte e política.
Que na soma entre novos e velhos espaços, prevaleça sempre um constante reconhecimento, ainda que isso venha com torcida digital...
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