Cotovelos e preocupação
- Outra Cancha
- 16 de mai. de 2020
- 7 min de leitura

"Wie man in den Wald hineinruft, so schallt es heraus".
Este é um provérbio alemão que poderia ser traduzido literalmente assim: "Como se grita na floresta, assim vem o eco". Aportuguesando o provérbio poderíamos chegar em algo como o nosso "Quem semeia vento, colhe tempestade".
Os motivos de ter escolhido esta expressão para inaugurar este blog, o Outra Cancha, bem como a proposta do blog e um pouco sobre o jogo Borussia Dortmund 4 x 0 Schalke 04 serão os temas desta primeira postagem.
Talvez tenha se transformado até em um lugar comum falar sobre o "novo normal" que virá no mundo pós-pandemia. Primeiramente é mais do que necessário aceitar que o mundo de janeiro de 2020 jamais retornará e muitas mudanças de fato serão a nova realidade. O ponto que me pega e que me motivou a começar esses escritos por aqui é entender, também, que não poderemos, no Brasil e no mundo todo, esperar o fim da quarentena para que esse novo mundo apareça.
Penso que, se formos seguir a ciência e o pensamento racional para guiar nossas atitudes daqui pra frente, ponderando as especificidades de cada país ou região, todo e qualquer prazo de retorno às atividades presenciais, em áreas como a Educação (que muito me interessa, pelo fato de ser professor), os bares, restaurantes e, claro, o futebol e os esportes de modo geral, é provisório e não pode ser efetivado sem sérias medidas e restrições. Só que não adianta criar expectativas e ansiedades para uma data de retorno onde tudo será permitido, mas é natural querer voltar a estar nas ruas, em eventos e locais que gostamos.
Enquanto isso não é possível, para quem tem os privilégios, como eu, de poder ficar em casa, é fundamental manter-se bem, saudável e consciente (por mais complicado que isso possa parecer, principalmente no Brasil).
Nessa situação, todo e qualquer tipo de estímulo positivo, de vislumbrar no outro o que queremos para nós, pode ser uma ótima saída. Penso que por isso, durante a última semana, ao menos na bolha daqueles que gostam e acompanham futebol, foi sendo criado um enorme frisson em relação ao retorno da Bundesliga (Campeonato Alemão).
Pode-se dizer que entrei nesse hype. Acompanhei durante os últimos dias alguns blogs e podcasts que falaram especificamente sobre esse tema e naturalmente me preparei para hoje, às 10h30, assistir ao tão aguardado retorno do futebol. Mais do que isso, fiquei pensando em como, na história do futebol e do mundo, este retorno foi um marco. Nos jogos de hoje e em todos os outros que virão, novas regras (como o aumento no número de substituições para cinco por time), novas comemorações (tema que vou comentar bastante neste post), novas formas de jogar, dentre outras novidades passaram a existir e tudo que acontecer fora do campo também vai influenciar muito o que será feito dentro das quatro linhas.
Nesse movimento de preparação para essa rodada de retorno, um dos podcasts que ouvi foi o Bundesliga no Ar, da Central 3 e também o blog do jornalista Gustavo Hofman, da ESPN. Em ambos, a participação do comentarista esportivo da ESPN Gerd Wenzel foi um destaque e uso algumas de suas falas como forma de introduzir os meus comentários sobre os jogos de hoje.
No podcast, Gerd Wenzel fez questão de fazer uma sóbria colocação que transcende o futebol: qualquer povo, em períodos tão sérios como os de pandemia, precisa de lideranças, no sentido forte da palavra, que ajam como tal e forneçam informações e subsídios que os auxiliem. Conhecendo um pouco da história do comentarista, que nasce na Alemanha no período da 2ª Guerra Mundial e ainda criança vem para o Brasil, onde vive até hoje, é possível entender a importância dessa fala.
E aí é impossível também não dizer com todas as letras: Caio Ribeiro que me desculpe, mas futebol tem sim a ver com política. As palavras têm sim que ser ditas e a calamidade na qual se encontra o Brasil hoje é resultado de reiteradas atitudes confusas, inconsequentes e até mesmo ignorantes que estão sendo tomadas: como se grita na floresta, assim vem o eco.
Além disso, Wenzel falou também sobre futebol, claro. Cito aqui uma de suas falas, na entrevista dada a Gustavo Hofman, quando perguntado sobre como seria esse retorno aos jogos e às transmissões de hoje:
"Vai ser uma experiência diferente para todos nós e todos os envolvidos no campeonato. Na realidade, estamos entrando, pisando em uma terra de ninguém. Uma terra que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Sempre bom lembrar que serão jogos com portões fechados, não haverá público e com restritas regras de segurança sanitária. O Campeonato Alemão está paralisado há dois meses e uma semana, aproximadamente, não sabemos quais serão as condições físicas e técnicas das equipes e psicológicas dos jogadores. Alguns foram contaminados pelo vírus, outros tiveram amigos e familiares contaminados, estão com a cabeça eventutalmente (sic) em outro lugar. Então vamos ter uma situação, até para nós comentaristas, narradores, inédita em termos jornalísticos, de reportar o que está acontecendo em campo. O que se fala muito na Alemanha é que esse é um grande experimento de laboratório, e nós vamos fazer parte disso".
O experimento de laboratório começou e dá pra dizer que começou muito bem. Em uma manhã cinza e levemente chuvosa em Juiz de Fora, coloquei pães de queijo pra assar no tabuleiro no 4-1-2-3 e assisti, em meio a uma faxina da casa, junto com minha companheira, ao clássico Borussia Dortmund x Schalke 04.
Esse possivelmente foi o jogo que gerou o maior interesse na rodada, por conta da história que cerca o clássico, conhecido como Revierderby. O nome faz referência ao Ruhr ou Revier, importante área da Alemanha, situada no noroeste do país. As sedes dos dois clubes são separadas por pouco mais de trinta quilômetros e ao longo da história a rivalidade entre os aurinegros de Dortmund e os azuis de Gelsenkirchen sempre foi muito grande. Já há algum tempo, contudo, o Schalke deixou de figurar nas primeiras posições do Campeonato Alemão e nesta temporada vinha tendo muita irregularidade, mesmo antes da paralisação do campeonato.
O Borussia, por sua vez, perseguia de perto o líder Bayern de Munique e mesmo com a eliminação na Champions League para o PSG, dias antes da paralisação do futebol, tinha na sensação norueguesa Erling Haaland um nome de enorme destaque.
Dá pra dizer que, apesar das mudanças em virtude da pandemia, o cenário destacado acima permaneceu presente depois dos noventa minutos. O Schalke continuou mostrando irregularidades, uma defesa não muito confiável e um ataque pouco convincente. O Borussia, por sua vez, jogando em casa, mas sem torcida, parecia um time que nem ficou pouco mais de dois meses sem jogar. O entrosamento da equipe de Lucien Favre era perceptível e gerou belas triangulações que fatalmente foram transformadas em gols: dois do lateral/ala português Raphaël Guerreiro, um de Thorgen Hazard e o primeiro do badalado norueguês Haaland.
É impressionante o faro de gol do jovem atacante, que se destacou no RB Salzburg na primeira fase da Champions League 2019/20 e logo foi parar no Borussia. Em breve, possivelmente já estará em algum outro clube de ainda maior nome no futebol europeu. Dentre todos os destaques individuais do jogo, contudo, acredito que o principal é Julian Brandt. Outra jovem peça desse time do Borussia, presenteou os companheiros com belos passes que resultaram em gol e esteve a todo momento buscando o jogo. Um ótimo jogador!
Além da rivalidade, dos gols e assistências, não daria pra ficar sem falar das comemorações e nesse ponto dá até pra falar um pouco sobre os outros jogos dessa rodada de retorno da Bundesliga. Os cotovelos acabaram se tornando os principais substitutos dos abraços. E essa simples mudança já é uma imagem clara do "novo normal" que está sendo feito.
Uma das exceções a esse tipo de comemoração apareceu depois do belo gol do brasileiro Matheus Cunha, do Hertha Berlin, terceiro da vitória de 3 x 0 sobre o Hoffenheim. Fora isso, nas vitórias do Borussia Mönchengladbach sobre o Eintracht Frankfurt por 3 x 1, do Wolfsburg sobre o Augsburg por 2 x 1 e no empate entre Friburguense x Bragantino por 1 x 1, os cotovelos foram os destaques nas comemorações.
E não, você não leu errado, um grande amigo, também ansioso pelo retorno do futebol, quando ligou a televisão pela manhã e viu o jogo que estava passando brincou que parecia se tratar de uma disputa entre brasileiros, por conta dos nomes e patrocínios dos dois times. Fato é que o clube alemão do patrocinador das bebidas energéticas, apesar de ainda vivo na Champions League, caso a competição também retorne, não voltou tão bem na Bundesliga e vê as chances de título parecerem cada vez menores, coisa que no começo da temporada era diferente.
Voltando ao clássico entre Borussia x Schalke, além das comemorações com cotovelos e distanciamento, teve também a tradicional saudação dos jogadores no fim do jogo à muralha amarela, setor das arquibancadas do Signal Iduna Park onde geralmente ficam os torcedores mais fanáticos do time. O gesto, simbólico, já que todas as arquibancadas estavam vazias, é outra das imagens que vão ficando marcadas nesse novo momento histórico do futebol e que representa uma mistura de cuidado e conscientização que de modo geral está acontecendo na Alemanha: cuidado com o passado e a tradição, com a humanidade e, ao mesmo tempo, conscientização diante do novo e incomum momento que vivemos.
No fim, talvez seja essa mistura o que venho procurando desenvolver na minha própria quarentena e por isso a natural associação entre o futebol e à vida: olhar pra dentro de si e de quem está ao seu redor com cuidado e atenção, saber que mesmo distante, em necessário isolamento físico, não se está longe. Para manter-se ativo nesse período, além de ouvir David Bowie, como estou fazendo agora, é fundamental, também, ter consciência da seriedade do que estamos vivendo e não ultrapassar barreiras a partir de meros achismos: como se grita na floresta, assim vem o eco.
A partir dos próximos jogos e acontecimentos envolvendo o futebol, a pandemia, o Brasil e o mundo que eu for presenciando e vivendo, espero trazer novos posts com reflexões e ideias de um apaixonado pela literatura e por essa guerra maravilhosa de noventa minutos.
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