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Da beleza do contraponto ou o rival que nos alerta

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 19 de mai. de 2020
  • 3 min de leitura

Uma das ideias norteadoras desde a criação deste blog e que aparece tanto na sessão "Sobre", quanto nos dois posts já publicados, é o conceito de "novo normal". Nunca tinha lido um texto ou artigo que explorasse mais profundamente esta ideia, mas através de informações obtidas em vídeos e podcasts (dá pra ver que estes são realmente presentes na minha rotina), o "novo normal" pareceu ser algo que faz sentido para o incomum e incerto momento que estamos vivendo, no futebol e no mundo.


Curiosamente, contudo, talvez até por estar "perseguindo" cada vez mais este termo, me deparei ontem com um texto da escritora, professora e curadora brasileira Lilia Moritz Schwarcz, na Revista Gama (pertencente ao Nexo Jornal), que abriu os meus olhos para um lugar até então inexplorado e que inspirou também o título desta postagem de hoje.


O título do texto é De perto ninguém é normal (ou o 'novo normal'). Nele, a autora nos oferece uma interessante e necessária dose de ceticismo em relação à expressão "novo normal", iniciando o texto expressando o seu desconfiar de "expressões que fazem sucesso rápido e acabam servindo para qualquer ocasião. Afinal, o que explica tudo também explica nada".


A partir daí, uma série de questionamentos e reflexões sobre a validade desta expressão para explicar os nossos tempos são colocadas, trazendo inclusive importantes retornos históricos que nos ajudam a pensar ainda melhor sobre o tema, como a reação europeia à Revolução do Haiti (1791-1804) e os impactos sociais da gripe espanhola, no começo do século XX. Em ambos os casos, a autora destaca como "novos normais" na maioria das vezes acabam sendo conservadores até demais para serem chamados de novos.


O ponto central do texto parece ser o de mostrar como essa classificação de "novo normal", ao fim e ao cabo, pode ser uma forma de simplesmente dar ao extremamente problemático "normal" que já vivíamos antes da pandemia do Coronavírus uma nova roupagem. Especialmente se pensarmos em relação ao nosso país:


"E é nessas horas que ao imaginarmos o nosso “normal”, o projetamos para os demais, repaginando-o como um “novo normal”. Somos, porém, um país em que mais de 20% das pessoas vivem em moradias de um cômodo, onde residem quatro ou mais habitantes. No Brasil, 50% das casas não têm acesso ao esgoto sanitário. Trinta e três milhões de brasileiros não contam em seus lares com abastecimento de água confiável. E, mesmo assim, definimos que no “novo normal” – que não tem tempo ou espaço – não viajaremos tanto, não compraremos tantas roupas, não seremos tão consumistas, cozinharemos (quando der) e até arrumaremos a casa. A pergunta, mais uma vez, é a seguinte: “novo normal” para quem?".


Por mais que nossas resoluções pessoais, dentro das condições e oportunidades de cada um, apontem para novas formas de se relacionar com o mundo e que façamos deste período de isolamento social um momento de mudanças profundas e palpáveis, o que é louvável, abrir os olhos para o caos social pelo qual passamos e que infelizmente parece não ter uma solução fácil, também é necessário. Essa outra perspectiva me mostra a beleza do contraponto e apesar de trazer ainda mais preocupação, traz também um tom de alegria, por poder estar aberto filosoficamente a esse outro olhar.


Aí talvez possa ficar a pergunta: o que esse texto tem a ver com futebol? Afinal, o blog traz como mote essa outra cancha, essa relação direta entra o campo, a bola e o mundo que vivemos. A relação pra mim se apresenta de forma cristalina quando lembro das inumeráveis táticas e estratégias que eu enquanto torcedor e jogadores, técnicos e profissionais do futebol de modo geral adotam para estarem emocionalmente fortes e de pé diante dos rivais, diante de um estilo de jogo que parece engolir o seu, diante de uma torcida adversária inflamada, diante do craque adversário que tira o sono do seu zagueiro.


Esses momentos e sensações, tão presentes no futebol, nos fazem mais vivos e atentos. Nenhum jogo acaba antes do apito final, nenhuma partida é vencida sem suor e às vezes as certezas acabam nos cegando para o outro e quando este outro é o adversário dentro do campo a derrota pode ser a consequência direta do ensimesmamento.


No âmbito das ideias, felizmente, não existem vitórias e derrotas, mas sim contrapontos e argumentos, que nos fazem crescer, aumentando em complexidade os assuntos, gerando uma polifonia de perspectivas. Normal ou anormal, novo ou velho, o estado de inconclusão ainda é o motor dentro e fora das quatro linhas.

 
 
 

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