Ó, meu Mengão, eu gosto de você!
- Outra Cancha
- 24 de jul. de 2022
- 3 min de leitura

Aos poucos vai voltando a ser uma alegria (e não mais uma preocupação/tristeza) ver o Flamengo jogar. O time vem embalado por uma série de vitórias e duas classificações às quartas-de-final da Libertadores e da Copa do Brasil. Hoje pela manhã foi dia da estreia do chileno Arturo Vidal e também de uma nova vitória com gols de Pedro. No entanto, o tema rubro-negro volta ao Outra Cancha não por conta da situação atual dentro de campo, mas sim por uma leitura recente que fiz: Conte comigo - Flamengo e Democracia, de Helcio Herbert Neto.
O livro foi lançado este ano pela Editora Ludopédio e reúne depoimentos de diferentes torcedores rubro-negros, que falam sobre sua relação com o clube e também sobre como o vermelho e o preto do Flamengo carregam, em sua linda história, um contato muito próximo com práticas que promovem a democracia e a diversidade. O que se distancia, e muito, do que uns e outros que hoje têm poder sobre o time estão fazendo.
Antes de mais nada, é interessante ressaltar que a escolha dos depoimentos, por si só, já é uma marca da enorme diversidade de torcedores do Flamengo, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, e confirma o que é dito logo no primeiro parágrafo da apresentação do livro, que cito aqui: "Quem já subiu à arquibancada sabe: é tarefa hercúlea distinguir alguém na torcida. Sobretudo na do Flamengo, monstruosa. A multiplicidade é o motivo da festa. São as diferenças que tornam o sentimento de ser rubro-negro tão feroz. Ao encontrar alguém na rua com o uniforme do time, em vez da presumível sensação de identificação, o que há é a percepção alucinante de que o vermelho e o preto, combinados ao escudo do clube, comportam realidades tão diversas" (HERBERT NETO, 2022, p. 19).
Não é preciso ir longe para constatar o que é afirmado acima, dá pra dizer que sinto isso, literalmente, na pele. Não sou lá o protótipo do que o senso comum imagina ser um torcedor do Flamengo e isso, em certo sentido, me diferencia de boa parte dos torcedores rubro-negros. No entanto, é justamente nessa diferença que me sinto cada vez mais parte deste time, desta "magnética", como diria o grande Jorge Ben. As distâncias não importam. Mesmo mineiro, flamenguista.
Costumo dizer que, apesar de carioca de nascimento, o Flamengo transcende fronteiras, vai muito além do estado. E esse cosmopolitismo ou "democracia geográfica" é apenas uma das possibilidades de se valorizar a relação entre o Flamengo e a democracia. Várias outras aparecem no livro.
Os ex-jogadores Afonsinho (imortalizado na deliciosa "Meio de Campo", de Gilberto Gil) e Jayme de Almeida (que também foi técnico campeão com o Flamengo da Copa do Brasil de 2013) dão relatos de como, internamente, o Flamengo sempre foi um ambiente popular, construído por pessoas de origem pobre e fortemente associado, também, com a parcela negra da população.
Relação muito próxima com o futebol também teve Nando Antunes Coimbra, irmão do maior ídolo da história do clube, Zico. Ele conta como, em virtude de perseguições políticas que sofreu na época da ditadura, optou por abrir mão de certas possibilidades profissionais justamente para preservar a então promissora carreira de seu irmão.
A atleta Fabiana Beltrame, que competiu no Remo do Flamengo, relata como o clube se transformou num ambiente de apoio para ela, quando do nascimento de sua filha. Também no universo do Remo, aparece o depoimento de Hildegard Angel, jornalista, filha da ativista Zuzu Angel e irmã de Stuart Angel, que foi remador do Flamengo. Um forte relato, que mostra como Stuart literalmente deu a vida pelo clube e por seus ideais políticos. Mas nem só de atletas ou flamenguistas envolvidos diretamente com o esporte é composto o livro. Aparece também o depoimento de Luyara Franco, filha da ativista e então vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, covardemente assassinada em uma noite de quarta-feira, dia de jogo do Flamengo na Libertadores. Luyara conta como o Flamengo se tornou um ponto de conexão entre ela e a mãe.
E do universo musical aparecem os depoimentos de BNegão, Jards Macalé, Ynaiã Benthroldo e da eterna Elza Soares. Nestes depoimentos o lado torcedor fica mais evidenciado e em todos eles é possível perceber que o Flamengo é motivo de êxtase, extravasamento, mas também motivo de preocupação, por conta os rumos políticos que o time vai tomando atualmente. O sentimento que fica, após a leitura do livro, é o de esperança. Esperança de que consigamos sair logo desse caos autoritário instaurado em nosso país nos últimos anos e que teve reverberações claras no próprio Flamengo. Esperança de que possamos voltar a gritar em vermelho e preto sem medo de confusões ou intepretações duvidosas. O Flamengo é e se faz pelo povo, o Flamengo é e se faz múltiplo, diverso e democrático.
Referências HERBERT NETO, Helcio. Conte Comigo - Flamengo e Democracia. Prefácio de Moacyr Luiz. São Paulo: Editora Ludopédio, 2022.
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