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Futurível

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 29 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Depois dos últimos dias com lives de Gilberto Gil (sexta) e Milton Nascimento (ontem, domingo), além da confirmação do título da Premier League para o Liverpool (que ocorreu enquanto escrevia o último post deste blog, na quinta), elementos não faltam para um novo post, que vai falar sobre contatos entre o que se pode chamar de tradições e inovações, "antiguidades" e tecnologia.


Cada vez mais, diante de tudo que vem acontecendo nos últimos meses, enxergo o tão falado "novo normal", dentro e fora das quatro linhas, como um momento matizado e temperado por uma complexidade de fatores que não vão trazer tantas novidades quanto se esperava no início da pandemia, mas que também não vão deixar as coisas como estavam, principalmente quando se fala sobre esses contatos que quero destacar hoje.


Dois dos principais nomes da música e da cultura brasileira de modo geral, Gil e Milton representam muita coisa! Na última sexta o baiano completou 78 anos. O dia foi de festa, mesmo de quarentena, e começou com o lançamento de um vídeo da canção "Andar com Fé", no canal de YouTube de Gilberto Gil. Vários artistas, dentre eles Chico Buarque e Stevie Wonder, cantaram trechos da música e deram os seus parabéns para o autor da mesma. Sexta foi também um dia muito cheio de trabalho por aqui e ter começado o dia vendo este vídeo foi uma verdadeira injeção de ânimo e esperança. Dessas sutilezas e inspirações que a música, ontem, hoje e amanhã, sempre nos deu, dá e dará.


Para fechar o dia, a pedida não poderia ser outra: live do aniversariante. Junto de filhos e amigos, Gil escolheu tocar o repertório de seu show "Fé na Festa", uma verdadeira ode à música nordestina e resgatar assim uma tradição genuinamente brasileira. Ao longo da live, ao lado de toda essa tradição, a tecnologia também se fez presente: vídeos de amigos de Gil vindos do mundo todo, de Carlinhos Brown a Sting, de Mariana Ximenes a Willem Dafoe, dentre outros tantos, fizeram parte da transmissão e reafirmaram mais uma vez que Gil é um baiano que consegue conectar o mundo todo. Duas coisas foram inevitáveis: a saudade de ver Gil como Ministro da Cultura e as lágrimas caindo na hora de "Lamento Sertanejo", música que traz toda a potência da simplicidade e sempre me tocou muito. Paralelamente a tudo isso, um QR Code de uma campanha de doação via PicPay estava sempre presente na tela.


Código semelhante também fez parte de toda a live de Milton Nascimento. Além do código do aplicativo de transferências financeiras, outro direcionava para a empresa que realizou o tratamento de diabetes do cantor. O que foi inevitável nessa live foi pensar na enorme potência e tradição da voz e da canção de Milton. Os códigos tecnológicos apareciam lado a lado a canções que doem, emocionam, comovem e o fazem resgatando tradições, colocando Minas e suas montanhas; o povo, a força e a luta sempre em destaque. Canções que ressoam na memória de quem aprendeu muito de si mesmo ao escutar aqueles versos, se reconhecendo na mineiridade das paisagens na janela.


Gil e Milton já fizeram até disco juntos, possuem muitos pontos de contato, inclusive no ano de nascimento (Milton completará 78 em outubro), mas ao mesmo tempo ver as duas lives com um período de tempo tão curto entre elas também fez transparecer, pra mim, muito de suas diferenças: um Gil baiano, macrobiótico e dançante; um Milton mineiro, ressabiado e apenas com mãos dançantes.


Mas o que essa imensa dupla brasileira poderia ter a ver com o tão esperado título do Liverpool? Ver cantores com a história de Gil e Milton ativos, no mundo das lives e QR Codes, mostra que mesmo com o passar do tempo eles não ficaram para trás e a força simbólica deles neste momento de pandemia pode ser gigante para muitos em nosso país.


Ver o Liverpool ser exaltado pela brilhante temporada, muito por conta do estratégico planejamento que adotou há dez anos, aliando de uma maneira muito perspicaz esporte e tecnologia, também é algo há se destacar. Em outubro de 2010, o clube foi comprado pela Fenway Sports Group (FSG) e desde então uma revolução administrativa, financeira e também esportiva passou a acontecer na terra dos Beatles.


Essa revolução fez com que o time ficasse mais atento ao poder da sua própria história e reativasse toda a força de uma das torcidas mais apaixonadas do mundo. Isso possivelmente não aconteceria de forma tão rápida e tão intensa se não fosse a presença, desde outubro de 2015, do técnico alemão Jürgen Klopp no comando da equipe. Sou fã confesso deste treinador e não é sem motivo: ele é apaixonado pelo futebol e deixa transparecer sua emoção à beira do campo, gritando, esbravejando, gesticulando, dando socos no ar e comemorando sempre junto à torcida e aos jogadores. Além de todo esse espetáculo imagético que ele proporciona a cada jogo, ele é também um potencializador do que há de melhor nos jogadores. Praticamente todos os jogadores do atual elenco, principalmente o time titular, só evoluiu nas mãos do treinador. Não existe uma estrela absoluta no plantel, como Messi é no Barcelona, Cristiano Ronaldo é na Juventus, dentre outros exemplos que se poderia encontrar facilmente em vários times do futebol europeu. Klopp tem uma raiz planificadora, que coloca todos num patamar muito parecido. Parecido e elevadíssimo!


O resultado da união entre os frios e calculistas investimentos da FSG e do calor e paixão de Jürgen Klopp foi recompensado já com quatro títulos (Champions League, Supercopa da Europa, Mundial de Clubes da FIFA e agora a Premier League), e dá pra dizer que é só o começo. O elenco do Liverpool parece mental e fisicamente preparado para novas temporadas de sucesso (e o contrato de Klopp foi renovado até 2024).


Eu fico aqui observando, admirando e me dando pequenas doses de alegria, ao ver trabalhos tão viscerais obtendo o merecido sucesso e reconhecimento. Gil, Milton e Liverpool são exemplos da união entre a tradição real e não hipócrita e a inovação consciente e não leviana.

 
 
 

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