Justiça
- Outra Cancha
- 1 de jun. de 2020
- 4 min de leitura

Enquanto escrevo este texto o duelo entre Colônia e RB Leipzig vai fechando a 29ª rodada da Bundesliga (a vitória do time de Nagelsmann, com mais um gol de Werner parece ser questão de tempo). Em outra rodada com muitos gols, os líderes Bayern e Borussia deixaram, respectivamente, cinco e seis bolas nas redes dos modestos Fortuna Düsseldorf e Paderborn. Outro destaque foi a goleada por 4 x 1 do Borussia Mönchengladbach pra cima do Union Berlin.
Mas com toda certeza esse último final de semana, mesmo dentro do mundo do futebol, não vai ficar marcado por táticas ou aspectos diretamente ligados ao jogo em si, mas sim a muito do que aconteceu ao redor das quatro linhas. Pra falar um pouco sobre isso vou propor uma pequena viagem no tempo, que terá como bússola o título do texto: justiça.
Se pararmos pra pesquisar sobre o significado e a história deste conceito com certeza teríamos páginas e mais páginas de material e, inevitavelmente, algumas delas seriam sobre o filósofo grego Platão. Um dos principais nomes da Filosofia Antiga, Platão foi o responsável pela criação da Academia, primeira grande instituição de ensino do mundo ocidental e também o autor de vários diálogos filosóficos, que falavam sobre variados temas, como a verdade, o amor, a beleza e, claro, a justiça.
Não cabe aqui entrarmos em detalhes sobre os pensamentos platônicos, mas sim lembrar que, para o filósofo grego, a justiça deveria ser buscada de forma universal, ou seja, deveria ser válida para todos, independentemente da situação ou condição de cada um. É teoria? Sim. Mas será que ao longo da história, diante de tamanho desenvolvimento técnico e tecnológico da humanidade, não seria possível encontrar também formas de ao menos intensificar essa busca por uma justiça verdadeiramente universal? Os acontecimentos do último fim de semana parecem mostrar que não e já justificar um pouco as reações que aconteceram de várias formas e em vários lugares do mundo.
Mas antes de chegarmos no nosso caótico 2020, vamos dar um salto na história da Grécia Antiga de Platão para o ano de 1980. Ano de nascimento de um dos jogadores de futebol que eu mais respeito e admiro: Steven Gerrard. No último sábado ele completou 40 anos e o atual elenco do Liverpool, já treinando sob protocolos especiais, cantou parabéns para o seu eterno camisa 8. Além disso, várias outras homenagens ao jogador foram feitas nas redes sociais. Uma dessas homenagens foi enviada a mim por um grande amigo e agora também leitor do blog, com um pedido de post sobre Stevie G.
O post específico sobre ele não saiu, mas penso que nunca é demais falar sobre o que ele representou para o Liverpool e para o futebol de maneira geral. Até porque falar sobre Gerrard é falar também sobre o tema central do texto de hoje, a justiça. Isso ficou claro pra mim quando assisti o documentário Make us Dream (2018). As glórias, fardos e derrotas do meio-campista inglês são mostradas de forma muito interessante neste documentário.
Eu que passei a acompanhar de fato o futebol europeu depois do "Milagre de Istambul", a histórica final da Champions League de 2005, na qual o Liverpool conseguiu o seu quinto caneco europeu, em uma virada quase inacreditável diante de um franco favorito Milan, desde então passei a ver no time do Liverpool um sinônimo de força e garra e não demorou muito pra eu começar a torcer pelos Reds.
No documentário, a trajetória de Gerrard, desde as categorias de base, é recontada. A estreia no profissional com a camisa 28, a ida para a camisa 17 e por fim a camisa 8. Cada uma dessas mudanças de número foi dando mais destaque e responsabilidade para Gerrard dentro do time, que já vivia um período sem títulos ingleses (que infelizmente continua até hoje, mas tem os dias contados para terminar).
Apesar de glórias como a conquista da Copa UEFA de 2001 e da Champions League de 2005, o foco principal do documentário é a dor da não conquista da Premier League, que talvez nunca tenha ficado tão perto do Liverpool quanto na temporada 2013/14. E a cena que mais marcou a perda desse título foi justamente um escorregão de Gerrard num jogo decisivo entre Liverpool e Chelsea. O seu escorregão gerou um gol do Chelsea e acabou sendo determinante também para que o título inglês ficasse com o Manchester City naquela temporada.
Seja no inacreditável título da Champions de 2005, seja nesse doloroso escorregão de 2014, Steven Gerrard sempre foi um jogador justo. Foi o capitão e principal jogador do título da Champions, mereceu todos os holofotes e um constante interesse do Chelsea de José Mourinho na época; mas foi também o capitão que assumiu a culpa de seu erro em 2014 e pelas declarações e cenas do documentário, carregou isso até o fim de sua carreira como um verdadeiro fardo.
A partir desse ótimo exemplo, podemos enfim chegar ao último final de semana, onde a palavra justiça foi usada por muitos jogadores dentro e fora das quatro linhas. Primeiro veio o zagueiro estadunidense do Schalke 04, Weston McKeenie, com uma braçadeira pedindo justiça para George Floyd, homem negro morto na última semana pela polícia de Minneapolis; depois Jadon Sancho, com uma camiseta, na imagem que ilustra o post e depois outras tantas manifestações de jogadores e outras figuras públicas, de torcidas organizadas indo às ruas no Brasil, do povo estadunidense se rebelando, todas como que amalgamadas por ideias centrais de defesa da democracia, antifascismo, importância das vidas negras.
Todas essas bandeiras, ao fim e ao cabo, foram levantadas inicialmente por um pedido de justiça. Justiça para George Floyd. É a justiça de Platão, de Gerrard e de todos aqueles que de alguma forma se importam e estão comprometidos com uma humanidade mais igualitária e consciente que está em jogo.
Ver jogadores e torcedores se pronunciando ativamente nestes últimos dias é apenas mais uma comprovação de que sim, futebol e política têm tudo a ver! E tomara que esse fôlego dado pelos atos recentes seja sinal de uma das reais transformações que virão no pós-pandemia.
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