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O dilema

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 9 de jul. de 2020
  • 4 min de leitura

Um dos primeiros textos que publiquei neste blog foi motivado pelo início da leitura de Angels with dirty faces, livro do jornalista Jonathan Wilson que procura recontar a história da Argentina como foco no desenvolvimento do futebol no país de Maradona.


A empolgação com o início da leitura segue viva, quase dois meses depois. Em meio a outras leituras, tarefas domésticas e profissionais, preguiças e cansaços (tudo isso dentro de casa), vou lendo aos poucos os capítulos que contam curiosos casos do futebol argentino e vão entrelaçando o futebol e a política.


Além de aprender e conhecer mais sobre o país vizinho e alguns de seus times marcantes, como o Racing campeão do mundo em 1967, o tri da Libertadores do Estudiantes em 1968-70, com título mundial pra cima do Manchester United em 1968, o livro também trouxe, inevitavelmente, uma associação com tudo que vem acontecendo nos últimos dias no futebol brasileiro, em especial com o Flamengo.


Ler um livro sem pressa ou necessidade de terminar, além de prolongar a leitura por vários dias, parece deixar mais espaço para que o tema do livro não fique enclausurado nele mesmo ou apenas no momento da leitura.


Hoje li o capítulo 29, intitulado "A Tainted Triumph", primeiro da parte 4 do livro, que tem como tema o recorte temporal de 1973-1978, entendido como um renascimento do futebol argentino, após a conturbada derrota para a Inglaterra na Copa de 1966 e a não classificação para a Copa de 1970.


Esse renascimento dentro do campo trouxe o primeiro título mundial argentino, conquistado na Copa de 1978, que foi disputada na própria Argentina. Esse triunfo, contudo, como diz o título do capítulo, foi contaminado, manchado, maculado. O motivo? Assim como o título brasileiro na Copa de 1970, no México, este título argentino de 78 teve uma enorme vinculação ao regime ditatorial que governava o país na época, sob comando de uma junta militar encabeçada pelo General Jorge Videla.


Cesar Menotti (o jogador e treinador argentino, não o sertanejo brasileiro) foi o técnico daquela seleção argentina campeã do mundo e o seu visível desconforto de ter entrado para a história como o técnico do time que representou o golpe militar argentino para o mundo todo, mesmo sendo um defensor de ideais totalmente contrários ao da junta que estava no poder. Essa questão é relatada em sua autobiografia (que ainda não li, mas deu vontade) e leva o livro de Jonathan Wilson para um dilema: em que medida uma nação é o seu governo? Em que medida um time é a manifestação do seu país?


Além dos casos do Brasil de 1970 e da Argentina de 1978, outros que nos colocam esse mesmo dilema poderiam ser lembrados, mas eu penso que hoje, guardadas as devidas proporções, algo muito próximo desse dilema é o que vive todo e qualquer flamenguista minimamente consciente.


Desde o desnecessário e mal planejado retorno do futebol carioca, com um jogo entre Flamengo x Bangu (que também comentei aqui), a diretoria do Flamengo vem cometendo uma série de desastres envolvendo os direitos de transmissão dos jogos e o posicionamento diante da pandemia que assola o mundo todo, em especial o Brasil, diante de tanta flexibilização e incompreensão.


O presidente do clube, Rodolfo Landim, chegou até a ser cogitado para integrar o governo do país que, como todos sabemos, é muito mais uma caricatura do que propriamente um governo. Sem ministro da educação, sem ministro da saúde, sem um plano sério de combate ao Coronavírus. Não bastasse isso, o Flamengo vai sendo cada vez mais associado a todo esse desrespeito às vítimas da pandemia e é inevitável desvincular o que acontece dentro e fora de campo.


Até ontem, mesmo com todo o ruído que vinha do lado de fora, dentro de campo o time continuava sendo, de longe, o melhor do Brasil. Ontem, no entanto, não foi assim. Na disputa da final da Taça Rio contra o Fluminense, o time parecia sem alma, com muita dificuldade de impor o seu costumeiro e alucinante ritmo de jogo. Poucas foram as chances criadas, o que fez a partida ir para uma disputa de pênaltis, na qual o Flamengo acabou perdendo por 3 x 2.


A consequência direta disso é que agora o mais trágico Campeonato Carioca de todos os tempos vai durar mais uma semana: no próximo domingo e na próxima quarta, Flamengo e Fluminense, agora respectivamente campeões da Taça Guanabara e da Taça Rio 2020, voltarão a se enfrentar e daí sairá o campeão carioca.


Diferentemente do que normalmente acontece, contudo, o mais importante agora não parece ser o título, mas sim a postura de cada equipe diante da realidade que estamos vivendo. Parece ser um lugar comum, nesse sentido, principalmente para quem não acompanha tanto o futebol, colocar o Flamengo do lado da barbárie e o Fluminense do lado da civilidade. O Flamengo, com cloroquina; o Fluminense, com respeito ao isolamento social. Só que essa visão é, no mínimo, simplista e equivocada.


Por isso é necessário voltar ao dilema citado acima: é indefensável o posicionamento que a diretoria do Flamengo vem tomando, manchando a história do time que é motivo da torcida, alegria e sofrimento de milhões. Mas todos que se associam ao preto e ao vermelho que colorem e dão vida ao manto rubro-negro têm o mesmo posicionamento? Não. Dentre os milhões - os quais me incluo - que compõem o que é, verdadeiramente, o Flamengo, existem diversos pensamentos diferentes. Não pode ser uma dicotomia insolúvel torcer para o Flamengo ou defender o isolamento social e uma defesa mais séria e atenta da vida.


O Fluminense não tem nada com isso. Fez seu jogo, venceu e continua vivo no campeonato. Fora do campo precisa urgentemente pensar na qualidade das transmissões da Flu TV, mas tem uma tranquilidade ao que, institucionalmente, vem fazendo.


No fim das contas, mesmo com dilemas, dúvidas e complexidades envolvendo todo esse momento, o que não dá para negar é: ainda não consigo comemorar um gol do Flamengo da mesma forma que comemorei desde menino até 2019. Tomara que os próximos triunfos do time - que virão - não sejam todos contaminados. Ainda há tempo.

 
 
 

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