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O gosto do sonho

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 25 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Ontem foi dia 24 de junho de 2020, dia de São João. As tradicionais festas juninas, espalhadas em todo Brasil e conhecidas pelas aglomerações, quadrilhas, quentões e outras delícias mais infelizmente não puderam acontecer este ano. De casa, completando o meu centésimo dia de quarentena (enquanto muitos saem as ruas como se nenhuma pandemia estivesse acontecendo) presenciei, via internet, dois eventos que, interligados, serão os temas deste texto de hoje.


O primeiro foi o jogo entre Liverpool x Crystal Palace, válido pela 31ª rodada da Premier League. O principal campeonato de clubes do mundo enfim voltou e o retorno do Liverpool, no último domingo, contra o arquirrival Everton não foi dos melhores. Um empate sem gols e, principalmente, sem muito futebol. Totalmente compreensível, dado o grande tempo sem jogos por conta da pandemia e também as ausências de dois titulares absolutos: o lateral-esquerdo Robertson e Mohamed Salah, um dos principais nomes da equipe nas últimas temporadas.


Ontem, jogando em Anfield, mesmo sem torcida, mas com o sempre estimulante cântico de "You'll never walk alone" sendo tocado no estádio antes do início da partida, o time de Jürgen Klopp entrou em campo com força máxima e, cá entre nós, deu um baile no pobre Crystal Palace. Estatísticas mostraram que a equipe de Londres sequer entrou na grande área do Liverpool, proporcionando assim um dia bem tranquilo para o goleiro brasileiro Alisson. Mas muito além das estatísticas estava em campo o envolvente futebol do Liverpool, que não havia aparecido no domingo contra o Everton.


O time parecia disputar todas as bolas como se fosse a última, numa sinergia quase que perfeita entre vontade, garra, raça, técnica e organização. Dentre os vários destaques que se pode apontar, o belo gol do brasileiro Fabinho, num lindo chute de fora da área, talvez seja o principal. Um golaço que representa bem o que é esse time do Liverpool que agora está a pouquíssimos detalhes do tão sonhado título da Premier League.


A equipe vermelha da terra dos Beatles, a qual torço já há algum tempo, por mais que seja um dos maiores campeões ingleses de todos os tempos, com dezoito títulos (atrás apenas do Manchester United, que conta com vinte taças), nunca venceu o campeonato na chamada "Era Premier League", que marca uma profunda e importante modernização do futebol inglês e começou na temporada 1992/93. O último título inglês do Liverpool foi em 1989/90 e de lá pra cá a taça passou muito perto pelo menos duas vezes: na temporada 2013/14 e na temporada passada. Em ambas, o Manchester City acabou ficando o título e torcedores dos Reds, como eu, tiveram o gosto do sonho deslizando pela boca, quase seno saboreado, mas indo embora na última hora.


Dessa vez, o ansiado sabor desse sonho fatalmente será muito bem degustado, talvez hoje mesmo, caso o City não vença o Chelsea, num jogo que começou quando estava escrevendo este texto, ou então se vencer o próprio City, no seu próximo compromisso pela Premier League, no dia 2 de julho. Se o time de Pep Guardiola vencer essas duas partidas, o Liverpool ainda terá pelo menos outras seis oportunidades de ser campeão com uma simples vitória. Ou seja: é questão de tempo.


E o tempo entre o fim do jogo de ontem do Liverpool e o início de uma Live que aconteceu ontem foi o necessário para que eu saísse do escritório para o quarto e pudesse passar do jogo para o YouTube: #ManoDraw foi a hashtag que marcou essa livre, um encontro inusitado entre dois grandes nomes da recente cultura brasileira: o rapper Mano Brown e o médico Drauzio Varella.


Num papo que falou sobre a trajetória de Mano Brown nos Racionais MC's, a atual situação do Brasil, o racismo, a pandemia, dentre outros temas, foi muito perceber como são frutíferos diálogos são possíveis entre seres humanos que partem das mais variadas referências, mas que através de alguns pontos em comum conseguem construir muita reflexão.


Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi uma fala de Mano Brown, ao ser perguntado sobre como estava levando a vida nesse período de isolamento social, na qual ele falou enfaticamente sobre um sonho estranho que estava tendo e que ocorreu repetidas vezes, logo antes do início do isolamento social. No sonho, ele sentia que algo grande iria acontecer e que ele e outras pessoas estavam todas indo para um mesmo lugar, tentando escapar dessa grandiosidade que estava por chegar.


Já no período do isolamento social, Mano Brown disse que olhou pela janela e através de um sentimento estranho, literalmente "sentiu o gosto do sonho", que havia descrito anteriormente. Diferentemente daquele gosto pelo sonho da Premier League, este gosto mencionado pelo rapper era de algo ruim, assombroso. Assim como em várias situações que essa já longa quarentena nos traz, sentir o gosto do sonho pode ser uma forma de reconhecer medos e anseios, uma forma de refletir sobre o que estamos fazendo com nossos dias nesse duro período que estamos atravessando.


Muitos pensam que os sonhos são quimeras ou meras ilusões. Para o bem ou para o mal, eles podem ser muito mais que isso e enquanto não é nada seguro uma barraquinha de rua com canjiquinha e milho verde, é melhor "olhar a cobra" do coronavírus, que não é mentira nenhuma, como desavisados e negacionistas querer crer.

 
 
 

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