top of page
Buscar

Os anjos de caras sujas

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 21 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

Curiosamente, no último post publicado aqui, que tinha como um dos motes centrais a rivalidade, optei por colocar como imagem uma disputa de bola entre Brasil x Argentina, na famosa final da Copa América de 2004. Jogo que a cada dia ganha mais em importância dentro do imaginário do futebol brasileiro, muito em função das reprises e mais reprises de jogos antigos da Seleção e dos clubes que vêm acontecendo em canais de TV aberta. A ausência de futebol ao vivo, por conta da pandemia, acabou gerando essa demanda.


Mais importante do que isso foi o significado futebolístico mesmo dessa final. A Argentina, então há 21 anos sem ganhar um título (o tabu continua até hoje) tinha a vitória nas mãos até literalmente os últimos segundos do jogo e o então jovem Carlos Tévez, que viria a jogar no Corinthians no ano seguinte, já provocava os adversários com dribles curtos próximo à bandeira de escanteio para ganhar tempo e finalmente fazer com que os argentinos soltassem o grito de campeão, o que seria ainda mais especial por ter no Brasil o seu adversário na final.


Eis que surge a raça e a habilidade daquele que hoje em dia é famoso por tocar o seu tantã: Didico ou Adriano. Um símbolo do futebol brasileiro nas últimas décadas, num lance de muita força e precisão, acerta um chute de canhota da entrada da área para empatar o jogo em 2 x 2, no último lance, e levar a disputa para os pênaltis. Nessa disputa o Brasil sai vitorioso e faz o fantasma argentino seguir vivo.


Além da folclórica frase de Galvão Bueno de que "ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito bom!", que está presente na cabeça de dez entre dez brasileiros que acompanham minimamente o futebol, as referências mais marcantes e vívidas que tenho da Argentina são da literatura e do cinema.


Os cronópios e famas de Julio Cortázar, além de outros contos e textos do autor argentino, como A autoestrada do Sul (que narra uma situação onde pessoas ficam presas num engarrafamento, sem poder sair, e tendo que conviver - o que talvez se assemelhe de alguma forma com o atual momento que estamos vivendo na quarentena), marcaram um período no qual participava de grupos de leitura e já abriram muito a minha cabeça para alguns aspectos que considero fundamentais para a literatura e a vida: a beleza do jogo, a necessidade da poesia.


Também desse período vieram as primeiras leitura de Jorge Luis Borges, talvez o maior escritor argentino de todos os tempos e com certeza um dos principais nomes da Literatura mundial. Metalinguagem, filosofia, invenção de novos e peculiares mundos, tudo isso encontrei nos poucos livros dele que já li.


No cinema, outra obra que gosto muito é Medianeras, de Gustavo Taretto. Um retrato bastante sensível dos nossos tempos (ou seriam dos tempos que ficaram na pré-pandemia?). Mais recentemente, também fiquei muito tocado pelas micro-histórias que compõem o todo de Relatos Selvagens, de Damian Szifron. É uma coleção de pequenos detalhes cotidianos que podem gerar inesperadas e intensas reações, como as que aparecem no filme.


É de outro filme, no entanto, que retirei as imagens que ilustram este post. O segredo dos seus olhos, de Juan Jose Campanella, foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano de 2010. Confesso que (ainda) não assisti a este filme inteiro, mas conheci uma cena em específico a partir da leitura do prólogo do livro Angels with dirty faces, de Jonathan Wilson, leitura que comecei ontem e que já me inspirou a escrever este post.


O livro procura contar a história do futebol argentino até o ano de 2015 (ano em que foi publicado). Esta empreitada significa contar também um pouco da história do país vizinho sob outros aspectos, como o político e o social e essa é uma das características marcantes do livros de Jonathan Wilson de modo geral. Mostrar essas imbricações entre o esporte e a sociedade.


A referida cena de O segredo dos seus olhos se passa no Estádio Tomás Adolfo Ducó, construído no ano de 1949 e pertencente ao Club Atlético Huracán. A partir da memória histórica e afetiva do estádio, o autor procura mostrar no prefácio qual é o recorte que ele vai seguir no livro e explica também o significado do título do livro, que desde a primeira vez que li já me chamou muito a atenção, pela poesia que carrega consigo.


Numa final de Copa América, no ano de 1957, disputada em Lima, no Peru, na qual a Argentina venceu o Brasil por 3 x 0, o zagueiro argentino Federico Vairo, ainda no campo, no calor das comemorações, ao ter um microfone colocado em sua boca por um repórter bradou em alto e bom som algo como: conseguimos essa vitória devido a esses cinco caras sucias, esses cinco sinvergüenzas!


Essa fala faz referência a um filme estadunidense do ano de 1938, Angels with dirty faces, dirigido por Michael Curtiz, muito popular na Argentina na época e que contava a história de jovens impulsivos e rebeldes. A partir da fala de Vairo, contudo, a expressão passou a ser usada para se referir aos meias e atacantes argentinos daquela seleção campeã de 1957: Omar Orestes Corbatta, Osvaldo Cruz, Humberto Maschio, Antonio Angelillo e Omar Sívori (os três últimos responsáveis por 20 dos 25 gols da equipe em toda a competição).


Como disse acima, além desse significado histórico, a expressão (agora em português) anjos de caras sujas diz muito sobre um estilo de futebol associado à Argentina e que pode ser revisto em toda edição de Copa Libertadores, quando a habilidade, os dribles e a visão de jogo dos melhores jogadores argentinos são temperadas com muita catimba e por vezes até mesmo violência.


Mais do que isso, já no prefácio o autor também consegue indicar uma espécie de nostalgia e melancolia que o futebol e a sociedade argentina trazem consigo: ao ler imaginei uma foto em sépia de um restaurante clássico de Buenos Aires, num dia frio, com tango tocando ao fundo, vinho (aos montes) e torcedores de futebol discutindo sobre seus clubes e a seleção.


Essa imagem não deve ser tomada como generalização ou simplificação, mas sim como um recorte fiel de um dentre tantos momentos que compõem a história e o futebol da Argentina, que espero poder conhecer melhor durante a leitura do livro de Jonathan Wilson. Sentir aquele comichãozinho de uma boa obra literária que está por vir logo que se inicia é uma das melhores sensações.


E pra fechar, e poder pensar também sobre a atual realidade, foi inevitável não pensar, quando comecei a escrever este post, sobre uma imagem que circulou nos últimos dias nas redes sociais, vi originalmente na página do Quebrando o Tabu, que mostra a diferença absurda no número de mortos por Covid-19 no Brasil e na Argentina entre os meses de março e maio e traz como conclusão clara e direta a seguinte frase: "Um país que escutou a Ciência. E o outro que não".


Não cabe aqui analisar todos os motivos que nos trouxeram até o cenário que vivemos hoje em nosso país, mas olhar pro lado e ver como a Argentina e tantos outros países, mesmo diante das absurdas dificuldades que a pandemia traz, estão conseguindo de alguma maneira lidar com a situação é desesperador. Talvez estejamos precisando mais de anjos de caras sujas do que de pretensos salvadores "limpos" que na verdade se escondem acovardados diante de sua podre hipocrisia.

 
 
 

Comentarii


© 2020 por Outra Cancha. Orgulhosamente criado com Wix.com.

bottom of page