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Os veados e o "deus louco"

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 22 de nov. de 2020
  • 3 min de leitura

Nesse domingão as minhas escolhas no recheado catálogo do CINEFoot mais uma vez tocaram em temas que vão muito além do futebol, mas que têm suas origens no esporte bretão.


"A camisa proibida", de Diego Mello, Igor França, João Pedro Castro e Rafael Machado e "Bielsa, o 'deus louco' de Leeds", de Renato Senise contam histórias que sensibilizam, fazem pensar e que talvez tenham como ponto de ligação um tempero exótico para o que normalmente se conhece como "mundo do futebol". Neste mundo, segundo o senso comum, loucos e homossexuais não têm espaço, mas qual não será a surpresa de quem pensa assim ao assistir os dois curtas e perceber a potência democrática do futebol.


Com uma didática e certeira introdução sobre o surgimento do jogo do bicho no Brasil, feita pelo intelectual orgânico Luiz Antônio Simas, "A camisa proibida" traz à tona a questão da homofobia no futebol brasileiro. Tá, mas qual a relação com o jogo do bicho? O leitor desavisado poderia se perguntar. Este jogo clandestino que faz é parte indissociável da cultura urbana brasileira (assim como o futebol) tem como bicho que representa o número 24, o veado. A associação do bicho com os homossexuais logo se transformou em algo corriqueiro dentro do contexto machista e homofóbico que domina a nossa cultura dominante e por consequência disso, o número 24 passou a ser visto com preconceito pela grande maioria dos jogadores.


Falando assim cruamente parece algo completamente idiota, mas infelizmente não é. Ao assistir o curta foi impossível não lembrar, por exemplo, de Kobe Bryant, astro do basquete, morto no início desse ano em um trágico e fatal acidente, que durante o período final de sua carreira nas quadras usou o número 24 e não sofreu nenhum tipo de preconceito por conta disso. Quer dizer, este preconceito em específico tem nacionalidade: é brasileiro!


Durante o curta, que conta com depoimentos de jogadores do BeesCats, um time amador da Ligay, a liga de futebol brasileira para jogadores homossexuais, a "maldição" jogada sobre o número 24 é questionada e inevitavelmente se chega a um ponto fundamental: o aumento da visibilidade da questão LGBT também deve ocupar os campos e o mundo do futebol de forma geral, romper com os preconceitos de dentro, numa luta constante é uma tarefa de todos e o curta consegue deixar isso bem claro.


"Bielsa, o 'deus louco' de Leeds" era um dos curtas mais aguardados por mim, por vários motivos: acompanho o trabalho de Renato Senise já há algum tempo, através do podcast Correspondentes Premier e mais recentemente também na DAZN. Já havia assistido com bastante atenção uma entrevista feita por ele com Marcelo Bielsa no início dessa temporada da Premier League e fiquei muito feliz em poder assistir também este curta que tem como tema principal aquele que para muitos é o maior técnico de futebol do mundo: Marcelo Bielsa.


Pode parecer hiperbólico até demais tratá-lo como um "deus louco", mas conhecendo um pouco de sua excêntrica trajetória e da devoção que o povo de Leeds tem por ele, fica fácil e até recomendado entendê-lo como um louco que é também um deus. O bordão "In Bielsa We Trust", muito utilizado em Leeds nos últimos anos já mostra um pouco disso, mas os depoimentos do curta, em especial do professor e por que não artista urbano Andy McVeigh deixam isso ainda mais claro.


Imagine um professor que passa a pintar caixas nas ruas da cidade com as cores do time e com mensagens relacionadas ao técnico? Imagine um técnico que ao invés de escolher viver num resort luxuoso oferecido pelo time vai viver em um canto pacato da cidade, almoçar no restaurante local, conversar com as pessoas da comunidade e ir diariamente aos treinos a pé (uma caminhada de mais ou menos três quilômetros)? Tudo isso soa a ficção, a uma história inventada por um romântico qualquer que quer ver no futebol algo além dos petrodólares, marketing e artificialidade, mas não é ficção, é apenas um pouco do que Marcelo Bielsa passou a fazer na cidade de Leeds.


A reconstrução de um grande time, que move a paixão do povo e que estava há 16 anos longe da primeira divisão do futebol inglês ganhou um sabor todo especial com Bielsa e Senise conseguiu capturar bem isso neste excelente curta.


Amanhã é dia 23 de novembro. Para flamenguistas isso quer dizer muito.

 
 
 

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