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Sobre distâncias

  • Foto do escritor: Outra Cancha
    Outra Cancha
  • 17 de mai. de 2020
  • 4 min de leitura

Depois do histórico retorno de ontem, a Bundesliga continuou com a sua vigésima sexta rodada neste domingo. Tivemos o empate entre Colônia e Mainz, por 2 x 2 e a já esperada vitória do líder Bayern de Munique sobre o Union Berlin, fora de casa, por 2 x 0.


Nada de muito anormal dentro de campo, com exceção, é claro, das já tradicionais comemorações com cotovelos e a observância e colocação em prática dos vários e necessários protocolos estabelecidos pela DFB (Deutscher Fußball Bund), ou Federação Alemã de Futebol. Vale dizer que o confronto entre os líderes Bayern e Borussia, daqui a menos de dez dias, vai ganhando cada vez importância dentro do campeonato e interesse por parte de todos.


Mas para além das quatro linhas, o dia de hoje também trouxe outras reflexões que vieram a partir do futebol e do "novo normal" que vamos vivendo e construindo. Tais reflexões vieram através da união de duas coisas que fazem parte do meu normal já há algum tempo e que pelo visto continuarão muito presentes no "novo normal": louça pra lavar e podcasts.


Com a cada vez maior difusão desta plataforma, eu, que sempre fui um entusiasta deste formato, fui descobrindo novos e inusitados podcasts, em português e outros idiomas e muitas vezes uma das primeiras escolhas do meu dia é escolher qual podcast vou ouvir, porque já se foi o tempo em que eu conseguia acompanhar episódio por episódio todos os podcasts da minha lista.


Isso faz com que o tempo de duração do programa, bem como o tema do mesmo, acabem se transformando nos principais critérios para a minha escolha. Outro critério fundamental é a quantidade de louça a ser lavada. Devido ao "almojanta" que resolvi fazer ontem com a minha companheira, não fizemos nada para o jantar e isso fez com que a louça de hoje não fosse das maiores. Abrindo o meu agregador de podcasts, com tudo isso em mente, não titubeei e logo botei pra tocar "El regreso", episódio mais recente do podcast "El diario de Martín".


Conheci este podcast, que pertence à rede de podcasts da ESPN, através de um outro podcast, um dos meus preferidos, o Correspondentes Premier. Logo de cara me animou e muito a proposta de Martín Ainstein: reflexões sobre o seu trabalho como jornalista esportivo, sobre o futebol e a vida. A forte voz do jornalista, aliada a um tom quase confessional, que vai de detalhes da vida cotidiana a informações e análises sobre jogadores e esquemas táticos é uma mistura muito interessante pra mim e por vir quase sempre em episódios com média de quinze minutos acaba sendo uma pedida ideal para louças não muito volumosas.


O tema dessa última edição do podcast não poderia ser outro que não o retorno da Bundesliga. Antes de falar de futebol, Ainstein falou sobre a organização na casa dele no dia de ontem, com a esposa e os filhos, a preparação da comida, todos os detalhes que cercaram a experiência dele deste momento histórico para o futebol. Quando ele ligou a televisão na transmissão do clássico do Vale do Ruhr não conteve as lágrimas de emoção e a sensibilidade e verdade do seu relato são tocantes, de fazer ensaboar até com mais gosto os pratos.


Falando sobre a comemoração do gol de Haaland, uma definição simples, seca e que vai direto ao ponto: linda e triste. Além disso, Ainstein falou muito também sobre esse aspecto de rotina e acompanhamento das vidas que o futebol pode ter, mencionando inclusive um comentário do próprio irmão, que dizia sentir falta do som do futebol ao fundo, durante as tarefas domésticas. Numa bonita analogia, Ainstein disse também como o futebol acaba se transformando numa melodia para o andamento dos finais de semana de muitos ao redor do mundo e de como essa melodia vinha fazendo falta em sua vida. Neste momento já estava enxaguando a louça, com muitas ideias pipocando na cabeça.


Um ponto que perpassou todo o podcast foi a atenção dada por Ainstein para o papel que será e está sendo ocupado pelas distâncias nesse mundo (novo) normal. Distância entre os jogadores no banco de reservas, distância entre os jogadores na hora das comemorações e até mesmo a distância que todos nós estamos tendo que enfrentar em relação a amigos, familiares e pessoas das quais gostamos e que queríamos estar bem perto.


A distância é um tema incontornável deste novo cenário que estamos vivendo e refletir sobre isso a partir desse retorno do futebol me faz pensar sobre como as distâncias serão necessárias para que possamos nos aproximar mais da vida, por mais duro e paradoxal que isso possa parecer.


É estranho pra alguém que ama o futebol imaginar uma virada aos 45 do segundo tempo sem muito contato e suor nas comemorações. É estranho para alguém que ama as comemorações imaginar uma festa sem abraços. É estranho para alguém que ama abraçar os seus amigos e a sua família o cotidiano sem o toque de amor e de carinho pelo outro. Tudo isso me faz pensar e me tira do lugar onde acho que todos deveríamos estar para que o mundo fosse mais leve: o lugar do cuidado, da atenção e do afeto.


Talvez o sorriso e a ginga de Haaland, distante de seus companheiros de equipe, sejam formas de mostrar que ainda dá pra ter esperança e motivos pra se alegrar com o outro, mas que isso, pelo menos por enquanto, deve ser contido fisicamente em cada um.


Assim o escorredor se enche. Amanhã tem mais louça.

 
 
 

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