Um cenário imperfeito
- Outra Cancha
- 15 de jun. de 2020
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Depois de uma longa espera, na próxima quarta-feira enfim estará de volta a Premier League (Campeonato Inglês). Os dois primeiros jogos serão duelos entre Aston Villa x Sheffield United Manchster City x Arsenal.
De todos os campeonatos de futebol europeu que aos poucos vão retomando às atividades, a Premier League é, pelo menos pra mim, o mais aguardado. Os motivos são vários: desde a derrocada dos grandes esquadrões italianos da primeira década do século XX, como a Juventus, a Inter e o Milan (o Milan de hoje, por exemplo, não é nem sombra daquele time de Kaká, Pirlo, Seedorf e cia.) e o fim da era Pep Guardiola no Barcelona do início da década de 2010, com Messi, Xavi e Iniesta nos seus melhores momentos, dá pra afirmar com tranquilidade que o melhor campeonato de clubes do mundo é o inglês.
Com as chegadas de Klopp e Guardiola, respectivamente no Liverpool e no Manchester City, o campeonato ganhou ainda holofotes e por mais que nessa e na última temporada a disputa pelo título em momento algum tenha saído dessa polarização entre os vermelhos de Liverpool e o azuis de Manchester, os títulos de Chelsea, da surpresa Leicester e do United nos últimos momentos antes da aposentadoria de Alex Fergunson mostram que, diferentemente do que acontece na Espanha, por exemplo, a Premier League sempre oferece um maior número de postulantes ao título.
O clichê do futebol inglês bruto e sem técnica, que vive de levantar bola na área em busca de uma cabeçada perfeita dada por um desengonçado centro-avante (a figura do grandalhão Peter Crouch é uma ótima ilustração disso), há muito deixou de ser factível. O futebol inglês foi trazendo para dentro de si cada vez mais novas influências e estilos de jogo, jogadores do mundo inteiro e treinadores de outras escolas também. Exemplos claros disso aparecem no bom time do Wolverhampton comandado pelo português Nuno Espírito Santo e também nas últimas temporadas do Tottenham do argentino Pocchetino.
Na atual temporada, o domínio do MEU Liverpool é inconteste. Até alguns dias antes da paralisação do campeonato por conta da pandemia, o Liverpool estava invicto. A primeira e até o momento única derrota veio no dia 29 de fevereiro, contra o Watford, que briga contra o rebaixamento. Isso, no entanto, não tirou a primeira colocação e 25 pontos de frente para o vice-colocado, Manchester City. O tão aguardado título da Premier League agora literalmente está mais perto do que nunca para o time da terra dos Beatles. O jogo de volta, no próximo domingo, é justamente o clássico local, contra o Everton. Caso o City perca para o Arsenal na quarta, basta uma vitória sobre o rival, que o Liverpool assegura o título.
Ainda que isso não aconteça, parece questão de tempo este título. O que não tira o foco do Liverpool em busca da quebra de recordes. Além disso, várias outras disputas internas, por vaga na Champions League e Liga Europa, além da luta contra a Championship, que envolve times de muita tradição, como o recém promovido Aston Villa e também o West Ham.
Tudo isso muito me anima em relação a esse retorno da Premier League, mas como o título do post diz, apesar de toda essa empolgação, o cenário para esse retorno é imperfeito. Diferentemente do que aconteceu na Alemanha, por exemplo, quando do retorno da Bundesliga, as condições em relação à pandemia no Reino Unido não são das melhores. Nada que se compare ao Brasil, mas esse retorno incerto e imperfeito na Inglaterra pode trazer futuros problemas para o país e para a continuidade da própria competição e servir de (mau) exemplo para outros países, como o Brasil, que inconsequentemente vem reabrindo vários setores da economia (sem nem mesmo ter fechado totalmente) e cada vez mais vê o retorno do futebol também se aproximar, mesmo sem qualquer segurança.
Eu, sinceramente, temo. Mais pelo Brasil, mas também pelos ingleses. Não há qualquer base racional para um retorno às atividades e ainda assim, outros fatores, que formam o todo complexo que é a sociedade, encaminham vários países para este retorno. O "novo normal" já nasce capenga, com ressalvas e incertezas, e é bom que se fale disso.
Que dentro dos campos ingleses as bolas voltem a rolar com a mesma qualidade que rolavam antes da parada. Fora deles, assim como em outras partes do mundo, a Inglaterra também é palco de necessárias manifestações, que geram imagens como a que ilustra este post.
Discussão mais profunda do que se possa imaginar, o reconhecimento de forças literais e simbólicas que afirmaram e perpetuam o racismo na sociedade é uma urgência e inevitavelmente também será parte destacada deste momento histórico único que estamos vivendo. Da mesma forma que piadas racistas não são só piadas, estátuas não são só estátuas.
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